Resenha de Minha Sombria Vanessa, Kate Elizabeth Russell.
"Eu tinha 15 anos e ele 42. Isso não é uma história de amor"
Esse livro foi particularmente muito difícil de ler, não por conta da escrita da autora, que é impecável, mas pelo conteúdo em si. O livro prometia ser um Lolita às avessas, e eu não sei se cumpriu o seu papel, pois eu nunca li a obra de Vladmir Nabakov.
"Nada é capaz de deter um estuprador"
Vanessa Wye é uma garota de 15 anos simples do interior do Maine. Ela ganha uma bolsa de estudos para estudar no Colégio Interno Brodwick. Muito deslocada e tímida, ela faz poucos amigos (ou nenhum) e, no seu segundo ano estudando lá, ela conhece Jacob Strane, professor de literatura avançada.
É no momento que Strane percebe que a garota possui uma fragilidade emocional e uma solidão palpável que ele vê um potencial para abusa-lá. Tudo começa com um simples elogio, de como os cabelos de Vanessa (ruivo) pareciam com as folhas caídas do outono;
“Quando ele desaparece sou tomada por um frenesi, uma necessidade de fugir. Fecho o caderno com força, pego minha mochila e sigo para o alojamento, mas depois penso melhor e volto para examinar o chão em busca da folha que ele encostou no meu cabelo. Quando ela está segura, guardada entre as páginas do meu caderno, atravesso o campus como se estivesse leve, mal fazendo contato com a terra entre um passo e outro. Só quando já estou no meu quarto que me lembro de ele ter dito que me viu da sua janela, e fecho os olhos com força ao imaginá-lo na sala de aula, me vendo procurar a folha.”
Ela fica tão fascinada com o elogio que leva as folhas consigo para o alojamento.
Depois desse episódio, o favoritismo de Vanessa é evidente, recebendo livros a mais do professor, ficando horas em sua sala de aula, mesmo depois do horário já ter acabado.
Trecho do texto Lady Lazarus, Sylvia Plath:
Das cinzas
Eu surjo com meus cabelos vermelhos
E devoro homens feito ar
Strane dá um livro para Vanessa e sublinha esse trecho.
“Em voz baixa, o Sr. Strane pergunta:
— Tudo bem ter me lembrado de você?
Passo a língua pelos lábios e dou de ombros.
— Claro.
— Porque a última coisa que eu quero é passar dos limites.”
O professor faz um jogo psicológico acentuado, sempre fazendo parecer que Vanessa é quem está no controle.
"Meu pior hábito, segundo minha mãe, é como eu me defendo de elogios com a autodepreciação.”
A baixa autoestima e a autodepreciação de Vanessa é palpável durante toda a leitura. Depois de todas as investidas "sutis" como tocar em seu cabelo, elogia-lá pelo seu jeito reservado e dizer que ela tinha um "jeito sombrio parecido com o meu" Strane consegue convencer Vanessa da paixão que ele nutria por ela, beijando-a e acariciando-a quando ambos estavam sozinhos. Com isso, o abuso se intensifica e parte para o estupro, todavia Vanessa não denuncia e acredita piamente que aquilo é "normal" que ela é especial por ter conquistado a atenção de um homem mais velho e diferente das meninas de sua idade.
“À noite, depois que meus pais vão para a cama, fico em pé em frente ao espelho do meu quarto, examino meu rosto e meu cabelo, tentando me ver como o Sr. Strane me ver, bordo que usa vestidos legais e estilosos. Mas não enxergo nada além de uma criança pálida e sardenta.”
No seu inconsciente Vanessa sabe que ainda é uma adolescente em início de puberdade, que não existe em seu corpo nenhum indício de mulher em fase adulta para atrair um homem de 42 anos.
Boatos começam a se espalhar pelo colégio de que Vanessa tinha transado com Strane a troco de notas altas, em troca do favoritismo. Em certo momento, Vanessa é coagida por Strane a assumir toda a culpa e a falar que ela era desequilibrada e se apaixonou pelo professor 27 anos mais velho. Ela é expulsa da escola e vai morar com seus pais novamente, esculachada e humilhada.
A vida dela torna-se fadigante, ela fuma e bebe para poder ter um pouco de prazer (mesmo no ensino médio) fala com homens mais velhos mesmo tendo apenas 16 anos, pois ela crê piamente que garotos mais novos são babacas e que só um homem mais velho a entenderá, poderá ama-lá. Vanessa jamais supera Strane, é insano, absurdo, quase surreal. Quando tira sua carteira de habilitação, Vanessa viaja até a casa do professor para tirar satisfações com ele sobre sua expulsão de Brodwick, a qual ele participou diretamente da decisão da diretora de obrigar Vanessa a falar que o caso com Strane era invenção da cabeça dela. Não é necessário dizer que o abusador manipula a garota, fazendo-a acreditar que a expulsão e o encobrimento do caso foi para o bem dela, para evitar que ela sofresse ainda mais, porém é bastante evidente que ele só queria salvar a própria pele, que queria se safar da prisão.
Vanessa continua sendo abusada por Strane, eles continuam se vendo escondido e transando escondidos, e antes que alguém fale que "não é abuso se houver consentimento, a Vanessa deixa bem claro em várias partes do livro que se sentia incomodada, vazia, mas que como o Strane era o ÚNICO homem que poderia ama-lá, ela aceita.
"Lembro-me da minha colega de quarto da faculdade dizendo:
Sua vida parece um filme
Mas ela não entendia o horror de ver o próprio corpo estrelando um filme do qual sua mente não concordou em participar"
Strane atormenta Vanessa até na fase adulta, quando ela ainda está na faculdade. Eles se encontram esporadicamente e o professor é o único homem com quem ela já teve contato sexual. É um ciclo vicioso, Strane toma conta da vida de Vanessa, mesmo depois de tanto tempo. Os encontros casuais, as mensagens de texto. Por mais que lá para o fim, quando Vanessa está bem mais velha, com 25 anos, Strane já não tenha interesse sexual nela e ignore as suas investidas, porque ele é um PEDÓFILO, e continua abusando de alunas.
Quando as investigações de abuso sexual sobre Strane chegam até Vanessa ele fica desesperado, fazendo-a prometer que não vai contar a ninguém o que ocorreu com ela, que ele realmente a amava.
“O problema é esse? — pergunta. — Está precisando de atenção e empatia? Justo agora, no meio dessa tormenta, foi esse o momento que você escolheu para bancar a magoada?
Começo a me desculpar, mas ele me interrompe:
— Está comparando o que estou enfrentando a você ter recebido alguns e-mails? — pergunta ele, praticamente aos berros. — Você enlouqueceu, porra?”
A Vanessa sempre se culpa, na cabeça dela foi ela que corrompeu Strane, foi ela que fez um homem de 42 anos perder a cabeça por uma adolescente de 15.
“Quero dizer a ele que estou cansada, rolar de lado e nunca mais olhar para aquele troço, mas isso seria egoísta. Ele disse que meu corpo nu é a coisa mais linda que já viu. Seria cruel retribuir isso com nojo. Pouco importa que minha pele se arrepie quando toco nele. Pouco importa. Está tudo bem. Ele fez aquilo em você, agora você faz isso nele. Pode suportar alguns poucos minutos disso.
Quando ele guia minha mão para longe, tenho medo de que em seguida vá me pedir para usar a boca, e isso eu não quero fazer, não consigo, mas ele diz:
— Você quer que eu te coma? — É uma pergunta, mas na verdade ele não está perguntando.”
O psicológico frágil, a solidão, o sentimento de estar perdida e desamparada de uma menina de 15 anos foi explorado por um homem de 42, a seu bel prazer, aos seus interesses próprios. E no fim, com 32 anos, mesmo depois de tanto tempo, Vanessa ainda é aquela adolescente, frágil como papel, borrada como tinta, com sua vida atormentada pela sombra do abuso e de seu abusador, com relacionamentos destruídos, com uma carreira estagnada, se drogando para fugir da perda de controle que sua vida se tornou.
Ela ainda não superou, e talvez demore para superar.
Esse livro foi particularmente muito difícil de ler, não por conta da escrita da autora, que é impecável, mas pelo conteúdo em si. O livro prometia ser um Lolita às avessas, e eu não sei se cumpriu o seu papel, pois eu nunca li a obra de Vladmir Nabakov.
"Nada é capaz de deter um estuprador"
Vanessa Wye é uma garota de 15 anos simples do interior do Maine. Ela ganha uma bolsa de estudos para estudar no Colégio Interno Brodwick. Muito deslocada e tímida, ela faz poucos amigos (ou nenhum) e, no seu segundo ano estudando lá, ela conhece Jacob Strane, professor de literatura avançada.
É no momento que Strane percebe que a garota possui uma fragilidade emocional e uma solidão palpável que ele vê um potencial para abusa-lá. Tudo começa com um simples elogio, de como os cabelos de Vanessa (ruivo) pareciam com as folhas caídas do outono;
“Quando ele desaparece sou tomada por um frenesi, uma necessidade de fugir. Fecho o caderno com força, pego minha mochila e sigo para o alojamento, mas depois penso melhor e volto para examinar o chão em busca da folha que ele encostou no meu cabelo. Quando ela está segura, guardada entre as páginas do meu caderno, atravesso o campus como se estivesse leve, mal fazendo contato com a terra entre um passo e outro. Só quando já estou no meu quarto que me lembro de ele ter dito que me viu da sua janela, e fecho os olhos com força ao imaginá-lo na sala de aula, me vendo procurar a folha.”
Ela fica tão fascinada com o elogio que leva as folhas consigo para o alojamento.
Depois desse episódio, o favoritismo de Vanessa é evidente, recebendo livros a mais do professor, ficando horas em sua sala de aula, mesmo depois do horário já ter acabado.
Trecho do texto Lady Lazarus, Sylvia Plath:
Das cinzas
Eu surjo com meus cabelos vermelhos
E devoro homens feito ar
Strane dá um livro para Vanessa e sublinha esse trecho.
“Em voz baixa, o Sr. Strane pergunta:
— Tudo bem ter me lembrado de você?
Passo a língua pelos lábios e dou de ombros.
— Claro.
— Porque a última coisa que eu quero é passar dos limites.”
O professor faz um jogo psicológico acentuado, sempre fazendo parecer que Vanessa é quem está no controle.
"Meu pior hábito, segundo minha mãe, é como eu me defendo de elogios com a autodepreciação.”
A baixa autoestima e a autodepreciação de Vanessa é palpável durante toda a leitura. Depois de todas as investidas "sutis" como tocar em seu cabelo, elogia-lá pelo seu jeito reservado e dizer que ela tinha um "jeito sombrio parecido com o meu" Strane consegue convencer Vanessa da paixão que ele nutria por ela, beijando-a e acariciando-a quando ambos estavam sozinhos. Com isso, o abuso se intensifica e parte para o estupro, todavia Vanessa não denuncia e acredita piamente que aquilo é "normal" que ela é especial por ter conquistado a atenção de um homem mais velho e diferente das meninas de sua idade.
“À noite, depois que meus pais vão para a cama, fico em pé em frente ao espelho do meu quarto, examino meu rosto e meu cabelo, tentando me ver como o Sr. Strane me ver, bordo que usa vestidos legais e estilosos. Mas não enxergo nada além de uma criança pálida e sardenta.”
No seu inconsciente Vanessa sabe que ainda é uma adolescente em início de puberdade, que não existe em seu corpo nenhum indício de mulher em fase adulta para atrair um homem de 42 anos.
Boatos começam a se espalhar pelo colégio de que Vanessa tinha transado com Strane a troco de notas altas, em troca do favoritismo. Em certo momento, Vanessa é coagida por Strane a assumir toda a culpa e a falar que ela era desequilibrada e se apaixonou pelo professor 27 anos mais velho. Ela é expulsa da escola e vai morar com seus pais novamente, esculachada e humilhada.
A vida dela torna-se fadigante, ela fuma e bebe para poder ter um pouco de prazer (mesmo no ensino médio) fala com homens mais velhos mesmo tendo apenas 16 anos, pois ela crê piamente que garotos mais novos são babacas e que só um homem mais velho a entenderá, poderá ama-lá. Vanessa jamais supera Strane, é insano, absurdo, quase surreal. Quando tira sua carteira de habilitação, Vanessa viaja até a casa do professor para tirar satisfações com ele sobre sua expulsão de Brodwick, a qual ele participou diretamente da decisão da diretora de obrigar Vanessa a falar que o caso com Strane era invenção da cabeça dela. Não é necessário dizer que o abusador manipula a garota, fazendo-a acreditar que a expulsão e o encobrimento do caso foi para o bem dela, para evitar que ela sofresse ainda mais, porém é bastante evidente que ele só queria salvar a própria pele, que queria se safar da prisão.
Vanessa continua sendo abusada por Strane, eles continuam se vendo escondido e transando escondidos, e antes que alguém fale que "não é abuso se houver consentimento, a Vanessa deixa bem claro em várias partes do livro que se sentia incomodada, vazia, mas que como o Strane era o ÚNICO homem que poderia ama-lá, ela aceita.
"Lembro-me da minha colega de quarto da faculdade dizendo:
Sua vida parece um filme
Mas ela não entendia o horror de ver o próprio corpo estrelando um filme do qual sua mente não concordou em participar"
Strane atormenta Vanessa até na fase adulta, quando ela ainda está na faculdade. Eles se encontram esporadicamente e o professor é o único homem com quem ela já teve contato sexual. É um ciclo vicioso, Strane toma conta da vida de Vanessa, mesmo depois de tanto tempo. Os encontros casuais, as mensagens de texto. Por mais que lá para o fim, quando Vanessa está bem mais velha, com 25 anos, Strane já não tenha interesse sexual nela e ignore as suas investidas, porque ele é um PEDÓFILO, e continua abusando de alunas.
Quando as investigações de abuso sexual sobre Strane chegam até Vanessa ele fica desesperado, fazendo-a prometer que não vai contar a ninguém o que ocorreu com ela, que ele realmente a amava.
“O problema é esse? — pergunta. — Está precisando de atenção e empatia? Justo agora, no meio dessa tormenta, foi esse o momento que você escolheu para bancar a magoada?
Começo a me desculpar, mas ele me interrompe:
— Está comparando o que estou enfrentando a você ter recebido alguns e-mails? — pergunta ele, praticamente aos berros. — Você enlouqueceu, porra?”
A Vanessa sempre se culpa, na cabeça dela foi ela que corrompeu Strane, foi ela que fez um homem de 42 anos perder a cabeça por uma adolescente de 15.
“Quero dizer a ele que estou cansada, rolar de lado e nunca mais olhar para aquele troço, mas isso seria egoísta. Ele disse que meu corpo nu é a coisa mais linda que já viu. Seria cruel retribuir isso com nojo. Pouco importa que minha pele se arrepie quando toco nele. Pouco importa. Está tudo bem. Ele fez aquilo em você, agora você faz isso nele. Pode suportar alguns poucos minutos disso.
Quando ele guia minha mão para longe, tenho medo de que em seguida vá me pedir para usar a boca, e isso eu não quero fazer, não consigo, mas ele diz:
— Você quer que eu te coma? — É uma pergunta, mas na verdade ele não está perguntando.”
O psicológico frágil, a solidão, o sentimento de estar perdida e desamparada de uma menina de 15 anos foi explorado por um homem de 42, a seu bel prazer, aos seus interesses próprios. E no fim, com 32 anos, mesmo depois de tanto tempo, Vanessa ainda é aquela adolescente, frágil como papel, borrada como tinta, com sua vida atormentada pela sombra do abuso e de seu abusador, com relacionamentos destruídos, com uma carreira estagnada, se drogando para fugir da perda de controle que sua vida se tornou.
Ela ainda não superou, e talvez demore para superar.

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