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Mostrando postagens de julho, 2020

onde anda você

onde anda você? foi a mensagem que ele me mandou 2 anos depois do término. pensei em dizer que estava no Equador, vendo picos e desertos de sal. Na verdade eu estava onde eu realmente eu queria.  da varanda sinto o cheiro de água salgada.  estou estudando em uma universidade daqui, não no curso que eu sempre sonhei, mas em um curso bom. comecei a namorar de novo e fazia anos que eu não namorava, ou pela culpa que eu sentia ou por medo de ser horrível.  as minas descrições são gráficas: vou a praia de areia mais branca e de água mais azul. piso na areia e sinto o quente atravessar meus pés, estou com um vestido curto branco, olho pra trás e vejo ele, de olhos tão castanhos quantos os seus. eu já mergulhei nele tantas vezes que já perdi as contas, como foi com você.  o tempo me levou, e não tem nada de horrível nisso, sinto-me feliz em está aqui. 

ferida narcísica

olho pra ele e pisco d-u-a-s vezes evito encarar. vou em rumo a mesa de bebidas e controlo minhas mãos ao pegar o vinho para que elas não me denunciem. o que me fere é ver ele aqui, porque feriu meu ego. meus cabelos médios ondulados caindo pelos ombros, meu corpo um pouco fora de forma que eu espremi em uma saia lápis cor caqui e uma blusa de alças da mesma cor. a maquiagem não está carregada mas posso sentir o grosso do batom vermelho escuro no lábios e lembro quando você os beijou e depois como os descartou. eu não gosto mais de você mas a ferida que deixaste em mim ainda pulsa às vezes. ele me reconhece, diz olá e eu digo olá quanto tempo, ele diz em um sorriso cínico eu respondo pois é ele vê meu crachá de palestrante você fez doutorado? eu digo: em psicanálise interessante, eu também estava fazendo um doutorado (como sempre, você não deixaria passar)  como vejo que não tem crachá, pergunto vai palestrar? não, fui convidado (silêncio) preciso ir, eu digo levant...

a todo momento

a todo momento quero amar as curvas do meu corpo a todo momento as odeio também só não sei se odeio porque odeio ou se as odeio por causa da sociedade a todo momento sou bombardeada de empecilhos que se tornam gigantes a cada segundo a todo momento me forço a ser o ideal não para mim mas para o meio social algo externo algo cruel quero me amar mais quero pôr em prática o amor próprio pois eu não me amo nem um tico me amo tiquinho mas o inho não faz casa de sobrado

é tarde demais

Pedro te vi na avenida vestida e nua ao mesmo tempo seu olhar me desmontou me elevou vou te levar a qualquer lugar para dentro de mim o tempo te levou. é tarde demais. Ana Carolina você me deu girassóis no nosso primeiro encontro, me beijou no rosto e pegou minha mão em chamas. fomos ao cinema assistir um filme ruim. andamos pelas avenidas movimentadas nos juntando e se fragmentando em milhares de pedaços, ainda sinto seu cheiro nos lençóis da minha cama. dia 23 são seis da tarde. espero ele na porta do cinema. quando avisto aquele menino-garoto com ar de perdido no meio dos carros, atravessando na faixa de pedestres, me dou conta de o quanto estou apaixonada por ele, com aquela armação de óculos que me lembra meu pai e com um girassol na mão e eu olho pro céu laranja e para as luzes que tomam conta da avenida movimentada. vemos um filme, nos beijamos, comemos comida daqueles carrinhos de rua, sinto a brisa fria da noite e me pego com coração saltitando quando...

moinho

Acordo suada, cansada da vida e dos pesadelos. olho o celular: três e quarenta e cinco da madrugada. acabei de ter um pesadelo com muita, muita água e depois me afogando, acordei de supetão buscando por ar. abro a janela e acendo um cigarro, o trabalho na firma começa às 8 mas sei que não vou dormir. dou uma olhada no celular e nas redes sociais, e falo pra mim mesma que vou desinstalar aquela merda toda que só tem vidas perfeitas e, senão, só tem notícia das merdas que o presidente faz. Eu queria muita ter alguém pra mandar mensagem no meio da noite contando sobre o meu pesadelo ou alguém para dormir do meu lado que eu pudesse abraçar e que me consolasse, mas eu não tenho e isso dói. Pego o metrô e vou lendo um livro de poesias até lá. eu sou uma constelação em chamas, implorando para ser descoberta. com meu suéter verde, cabelos em rabo de cavalo e a franja caindo sobre os olhos eu sou uma árvore fria implorando pelo olhar de alguém, mas ninguém olha. Chego na firma e, pra minha s...

1964

era tarde da noite quando Ana chega em casa batendo a porta. estava arrasada e inconsolável pois seu namorado, Ivan, havia sido  preso pelos militares. Ana conseguiu escapar pela saída do ar-condicionado, não sem antes jurar amor eterno e prometer resgatar o namorado das mãos dos ratos fascistas. era 1968, o início da linha dura. Durante dois anos, Ana juntava-se as  guerrilhas para conseguir a liberdade de Ivan, roubava: do governo, sequestrava: pessoas do governo e jamais matou um único inocente, tudo pensando em Ivan e em salvar o país dos ratos fascistas. em uma noite, na serra, escondida dos militares com um grupo de guerrilha, morrendo de fome e com muito frio, Ana olha as estrelas e pensa o quanto seria bom estar na companhia de Ivan em um país democrático e sem repressão, pensa que seu estômago está vazio e que seus dedos estão dormentes mas é por uma boa causa. pensa que suia camisa está suja de sangue mas foi para defesa contra um brutamontes violento. Ana dei...

pancadas

quantas pancadas a vida vai ter que me dar para eu entender que o momento que o agora é o mais importante? quantas pancadas a vida vai ter que me dar para que eu entenda que as pessoas que me rodeiam me amam me abraçam me beijam verdadeiramente? quantas pancadas a vida vai ter que me dar para que eu possa diferenciar pensamento intrusivo do real? quantas pancadas a vida vai ter que me dar para eu parar de fazer apostas comigo mesma com a minha mente? quantas pancadas a vida vai ter que me dar para eu viver o agora intensamente sem pensar em doenças em confiança em paranoias que a vida me dá que a minha mente cria só pra me torturar e aí, quantas pancadas você vai me dar?

a vida destruída repetidas vezes

é cinco da manhã levanto e passo o café olho pela janela e escuto o barulho dos carros da quitinete com um quarto, sala cozinha e banheiro eu tiro minhas roupas da cômoda ao lado da cama bagunçada com cheiro de Malboro antes de ir pro banho fumo um cigarro recostada na janela olho a multidão e exalo fumaça e inspiro morte saio de casa e vejo que vai chover esqueci a capa de chuva o que é um problema vou pro meu trabalho medíocre pensando que eu possa ser atropelada por um carro ou que escorregue e quebre a cabeça no meio fio quando eu era mais nova e tinha pessoas que eu amasse me preocupava o tempo todo se eu era suficiente o bastante e eu nunca era toda vez quando o pedro saia eu me perguntava: será que hoje ele vai pra nunca mais voltar? será que hoje ele pode dar o azar de bater de frente com um caminhão ou conhecer alguém no bar e evaporar? e tudo isso que temos ser uma mentira uma doce mentira a qual só eu sofri de ilusão? chego no trabalho Às 8 es...

O peso do pássaro morto

a morte é algo inevitável. a luto é algo que dói. a vida não é para armadores. o livro do pássaro vai contar a história de uma mulher dos seus 8 anos de idade até os 52. a vida dela é composta de perdas, é duro e necessário, cru e amargo. aos 8 anos ela perde a melhor amiga dela e não sabe, inicialmente, o que é morrer. morrer é o bife, morrer é não poder fazer mais nada com a própria carne, parafraseando uma frase da mãe dela. com 17 anos ela é estuprada pelo seu ex-namorado de escola. as coisas acontecem rápido e é tão doloroso, infinitamente doloroso. ela está em um show com uma amiga, lá elas conhecem um cara e decidem dar um beijo triplo e isso é fotografado. no dia seguinte é espalhado pela escola para todos verem e o namorado dela fica infinitamente chateado e em uma atitude criminosa decide estuprá-la, decide destruir a vida dela da forma mais vil possível. do estupro nasce um filho cujo nome é Lucas. quando ela vê o rosto do filho consegue visualizar com clareza a vi...