moinho

Acordo suada, cansada da vida e dos pesadelos. olho o celular: três e quarenta e cinco da madrugada. acabei de ter um pesadelo com muita, muita água e depois me afogando, acordei de supetão buscando por ar. abro a janela e acendo um cigarro, o trabalho na firma começa às 8 mas sei que não vou dormir. dou uma olhada no celular e nas redes sociais, e falo pra mim mesma que vou desinstalar aquela merda toda que só tem vidas perfeitas e, senão, só tem notícia das merdas que o presidente faz.
Eu queria muita ter alguém pra mandar mensagem no meio da noite contando sobre o meu pesadelo ou alguém para dormir do meu lado que eu pudesse abraçar e que me consolasse, mas eu não tenho e isso dói.
Pego o metrô e vou lendo um livro de poesias até lá. eu sou uma constelação em chamas, implorando para ser descoberta. com meu suéter verde, cabelos em rabo de cavalo e a franja caindo sobre os olhos eu sou uma árvore fria implorando pelo olhar de alguém, mas ninguém olha.
Chego na firma e, pra minha surpresa, tem um cara novo da contabilidade. alto, magro e de óculos, com um olhar meio caído vestindo blusa social branca e tênis marrom. uma faísca de eletricidade atinge meu corpo e percorre até minhas mãos que ficam gélidas. ele diz olá e eu digo olá. acho que deve ser um delírio meu mas durante a manhã peguei ele me encarando q-u-a-t-r-o vezes. não sei se devo, mas espero ele sair pro almoço e logo em seguida saio também. pegamos o elevador juntos. ele diz:
 - você é veterana aqui?
 eu - trabalho aqui a mais ou menos 2 anos.
 - qual seu nome? - ele pergunta com meio sorriso e eu digo:
 - Ana Carolina.
- o meu é Jorge, prazer. quer comer junto?
EU fico s-u-r-p-r-e-s-a
ele diz:
- como sou novo aqui não sei bem um restaurante bom para ir
- claro... vamos.

o PF foi bom e fiquei sabendo que ele veio do interior da Bahia e que ama sertanejo, soube que ele vem de uma família da roça e que foi o único a se formar e que seu pai faleceu a alguns anos
- meus pêsames
- não, tudo bem, isso já faz um tempo.
digo a ele que sou do interior de são paulo e que minha mãe tem uma floricultura, digo que meus pais são divorciados e que o meu pai não me liga a três meses.

o horário de almoço acaba e voltamos para empresa. no fim da tarde, ao sair da firma ele vem até minha mesa e prega um post-it com seu número de telefone.

no metrô: só penso no número que ele me deu
no caminho a pé pra casa: só penso em ligar pra ele e pedir que venha tomar um vinho comigo na sexta
no chuveiro: só penso nele entre as minhas pernas

digo: oi
ele diz: oi
eu digo: queria que hoje fosse sexta por que seria dia de pizza.
ele: queria que fosse fim de semana pra eu ficar deitado e depois comer algo diferente
eu: eu conheço algo bem paulistano, quer ir?
ele: é claro que eu quero
eu: queria ir pra tailândia pintar elefantes
ele: queria também
eu: em fim, nos vemos amanhã, boa noite
ele: boa noite

no dia seguinte vou com suéter vermelho e lip balm, quero que ele veja a paixão em mim, e ele vê
almoçamos juntos e falamos sobre jogos e rimos das nossas trapaças de infância, ele na fazenda e eu na cidade, roubando giz da professora, caindo na lama enquanto corria de um cachorro. ele me covida para tomar sorvete de baunilha e rir do meu bigode.
no dia seguinte ele me chama novamente para tomar sorvete e dessa vez me dá um beijo no nariz. por segundos acho que estou flutuando, e estou mesmo.

finalmente a sexta chega e ele me chama para ir tomar vinho no s-e-u apartamento. e, em fim, depois de várias risadas sobre as piores transas das nossas vidas ele me b-e-i-j-a e tudo que eu quero é sentir calor humano, o seu calor humano. ele me beija mais e mais e eu me derreto
em d-u-a-s
ele tira minha roupa e eu me despedaço
em milhares de pedacinhos
mordo seu lábio umas q-u-a-t-r-o vezes
ele tira meu suéter e chupa meu seio, eu pego seu volume e começo a movimentá-lo
e eu não aguento mais
ele pega a camisinha e penetra e eu
não sentia isso a a-n-o-s
deitamos no chão
fumamos um cigarro
e eu digo
- o mundo é um moinho
ele:
- eu sei Ana, mas o seu não precisa ser assim, o tempo todo.
- talvez
ele me beija
- quer dormir aqui essa noite?
- sim
fomos para cama e essa foi minha primeira noite em muitas que não tenho pesadelos.

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