ferida narcísica

olho pra ele e pisco
d-u-a-s vezes
evito encarar. vou em rumo a mesa de bebidas e controlo minhas mãos ao pegar o vinho para que elas não me denunciem. o que me fere é ver ele aqui, porque feriu meu ego.
meus cabelos médios ondulados caindo pelos ombros, meu corpo um pouco fora de forma que eu espremi em uma saia lápis cor caqui e uma blusa de alças da mesma cor. a maquiagem não está carregada mas posso sentir o grosso do batom vermelho escuro no lábios e lembro quando você os beijou e depois como os descartou. eu não gosto mais de você mas a ferida que deixaste em mim ainda pulsa às vezes.

ele me reconhece, diz olá e eu digo olá
quanto tempo, ele diz em um sorriso cínico
eu respondo pois é
ele vê meu crachá de palestrante
você fez doutorado?
eu digo: em psicanálise
interessante, eu também estava fazendo um doutorado

(como sempre, você não deixaria passar)
 como vejo que não tem crachá, pergunto
vai palestrar?
não, fui convidado
(silêncio)
preciso ir, eu digo levantando a taça sutilmente, aproveite.

depois da palestra, suor. suor.
estou a beira de tirar satisfações e tenho que me acalentar em alguém
preciso
suor. estou na cama e acabo de pegar um cigarro, não é ele que está do meu lado, é o meu marido.
olho da sacada e penso
"você feriu meu ego e vai ser sempre assim, mas isso não tem poder sobre mim."

e eu volto pros lençóis, porque é aqui que eu quero estar.

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